Rendado Barroco
Ricardo Rodrigues


Pontos de tinta aplicados sobre a superfície de vidro das garrafas, um a um, dão a impressão de compor redes de imagens diversificadas: florais, pingentes, colar de miçangas, fios espiralados...

Cada ponto é resultado de um gesto preciso, íntimo e casual. A garrafa gira em uma das mãos e a outra mão, segurando a tinta, faz movimentos que tem a suavidade daquilo que não foi planejado (e, por isso, merece atenção e cuidado). Os pontos variam no tamanho, no formato e na direção e vão cobrindo pouco a pouco essa superfície lisa, brilhosa e arredondada.  O efeito desse pontilhado é um rendado justo que parece cobrir e ressaltar o contorno das garrafas.

Lembra os rendados que ornamentam os altares, decoram oratórios, adornam as pilastras e as entradas das igrejas barrocas. Trata-se nesse caso de um emaranhado de imagens (flores, folhagens, plumas retorcidas, anjos, pássaros...) esculpido em madeira ou em pedra sabão. Daí vem o nome com o qual gosto de me referir a esse efeito com o pontilhado nas garrafas: Rendado Barroco.

Mas a associação com o Barroco não para na aglutinação de imagens que parecem compor uma grande rede. Gosto de pensar que provoco uma inversão no modo de olhar para o objeto. Normalmente, garrafa é vista como um objeto funcional, serve para conter um líquido. Então, o que importa, o que interessa e tem valor está dentro dela. Tanto assim, que quando se esvazia, ela deixa de ser útil e seu destino são as latas de lixo. Contudo, aqui, uso pontos de tinta para dar visibilidade ao seu contorno, sua superfície, seu brilho. 

Decoração ou arte...

Não busco um rótulo para o que faço. Não é esse o debate que visualizo com esse conjunto peças que apresento.  Até porque, no contexto em que se assiste o esvaziamento de conceitos e questiona-se da autonomia da arte, fico com o benefício da dúvida. Entretanto, arrisco dizer que o que deixa o olhar vidrado, em estado de contemplação, diante desse Rendado Barroco está ligado ao desejo de querer ver sob diferentes perspectivas aquilo que nos é habitual, familiar, normal. É a constatação de que necessitamos, de fato, da diferença.

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